Veja aqui a parte I do relato de parto.
Depois que cheguei na sala de parto, queria orar. Finalmente ia ver minha filha! Oramos os três, eu o marido e minha mãe. A enfermeira sugeriu que eu tentasse relaxar na banheira de hidromassagem até que a médica chegasse. Eu achei uma boa ideia, ainda tirei a última foto com o barrigão e de lá de dentro da banheira delícia aproveitei para mandar algumas mensagens e ligar para alguns amigos mais próximos (já eram umas onze e meia da noite!) entre as contrações. Enquanto isso o marido foi pedir para trazerem a bolsa da maternidade que eu tinha deixado em casa. Logo deu para perceber que tudo ia ser bem rápido. As contrações ficaram muito mais fortes e ainda mais próximas. Chamei a enfermeira e pedi por uma epidural, já prevendo que o anestesista poderia demorar a chegar. Como eu tive anemia durante a gestação, ela explicou que precisava fazer um exame de sangue antes. Eu disse que não ia dar tempo… Decidi sair da banheira e colher o sangue para agilizar o que pudesse. Foi sair da banheira e as coisas beiraram o impossível. Eu já conhecia aquela dor, sabia que a dilatação deveria estar em uns 6 ou 7 cm. Pedi que ela me examinasse, já que a médica ainda não tinha chegado e ela me falou, “você já está com 6 cm…”. Ela colheu o sangue a daí em diante eu já estava urrando de dor. Pedia por uma anestesia incessantemente e nada… Nada do resultado do exame de sangue, nada da médica chegar, nada do anestesista! Eu dizia à enfermeira que tudo ia ser muito rápido e que eu até topava assinar um termo de consentimento dizendo que abria mão do exame de sangue. Eu não achava que daria conta do parto sem anestesia…
A médica finalmente chegou para me examinar. Devia ser pouco mais de meia noite e eu já estava com 9 cm. O anestesista chegou logo depois e calmamente começou a organizar os instrumentos na mesinha, um por um na maior lerdeza desse mundo… Juro que se eu pudesse pegava eu mesma aquela seringa e enfiava nas minhas costas. Que desespero! Eu já sabia que precisava ficar paradinha para tomar a anestesia e pedi a ele que esperasse uma contração passar. Foi aí que eu tive uma voltade imensa de empurrar. Comecei a falar: “vai nascer, vai nascer!”. Minha bolsa rompeu , e começei a sangrar também. O anestesista olhou para mim e falou: “bem, meu trabalho aqui acabou, se é hora de empurrar não há mais nada que eu possa fazer, é tarde demais”. Eu queria gritar um “mas eu avisei!” na cara de todo mundo, mas não dava tempo, era hora de fazer a Gabi nascer!
Eu tive uns segundos de desespero de achar que não ia conseguir. Comecei a pensar que ela ia ficar presa também, que não ia suportar a dor… A médica e a enfermeira começaram a falar: “você vai ter a sua filha e você pode fazer isso. É hora de empurrar!” Pois bem, não tinha mais volta, certo? Tentei ficar na posição mais sentada possível e na hora que as contrações vinham instintivamente eu começava a fazer força. Sei que estavam os quatro comigo na sala: a médica, a enfermeira, minha mãe e o marido, mas nessa hora, todo mundo sumiu. Tive uma consiência corporal tão grande, que não adiantava, eu não ouvia mais ninguém. Eu empurrava na hora de empurrar, respirava na hora de respirar. É impressionante como sabia exatamente o que fazer! Acho que isso foi possível porque eu não estava anestesiada. Empurrei umas três vezes e perguntei se ela estava presa. Todo mundo começou a falar que já dava para ver a cabecinha dela… Senti o tal círculo de fogo na hora de passar a cabeça e depois de mais dois empurrões e ela nasceu! Chegou ao mundo às 00:47, 39 semanas e 3 dias de gestação. Veio direto para o meu colo, antes de qualquer coisa. Tão calminha… Logo começou a procurar o meu peito e já começou a mamar, ali mesmo. Eu estava exausta. Queria abraçar e segurar, mas não conseguia, meu braço não respondia… Eu aproveitei ela lá no meu colo o quanto pude. Só depois de mais ou menos 1:30 é que ela foi ser pesada e avaliada ali na nossa frente, na mesma sala. Esse momento seria perfeito se eu não tivesse que colocar a placenta para fora e levar os pontos! Achei uma tremenda sacanagem a pessoa ter que passar por tudo isso e depois ainda ter q ser costurada logo lá… Disse para a médica: “ah vai, deixa isso aí do jeito que tá, não precisa fazer nada não!”, ela deve estar acostumada às maluquices das recém-paridas, porque me explicou com toda a polidez canadense que não poderia fazer isso, que o resultado não seria legal e que eu ia acabar processando ela depois…
Eu fiquei olhando Gabi ser examinada e comentamos o quanto ela estava calma. Ela nasceu linda e perfeita! Fomos para o quarto por volta de 3 da manhã. Ela dormiu tranquilamente mas eu estava tão cheia de adrenalina que não consegui dormir. Foi a experiência mais intensa de toda a minha vida, eram muitos sentimentos juntos a serem digeridos! Além disso, ainda tinha a dor residual das contrações, algo normal no parto do segundo filho. No hospital tudo correu bem e viemos para casa no outro dia. Não poderia haver data melhor para começarmos nossa vida em família: era meu aniversário!
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Algumas considerações:
- Fiquei impressionada como o processo de amamentar a Gabi foi mais simples e natural do que com a Bella. Eu acho que além de ter a vantagem de ser uma segunda experiência, o tipo do parto influenciou bastante (e a falta de anestesia também). Há uma janela de umas duas horas depois do nascimento em que os bebês estão bem alertas e é nesse momento que é bacana tentar amamentar pela primeira vez. Eu nunca vou me esquecer da cabecinha dela procurando o seio depois do parto e já mamando logo de cara, sabendo direitinho o que fazer!
- A dor é absurda, fora do comum. Mas, se fosse para colocar em uma escala, achei que a dor do expulsivo é menos pior que a dor das contrações já perto da dilatação total.
- Posso falar? Eu me senti bem orgulhosa de mim mesma depois que tudo acabou. Juro que não botava essa fé toda na minha pessoa! Eu queria um parto normal sim, mas nunca pensei que faria isso sem a epidural. E fiz! Definitivamente é algo único, intenso e maravilhoso. Dolorido pacas, mas para mim foi libertador… Para quem realmente deseja e não tem restrições médicas, recomendo fortemente um VBAC! Deu para lavar a alma e resolver todos os meus dramas pessoais com meu primeiro parto. Obrigada meu Deus!